Meu Trampo: três anos e 24,2 mil alunos certificados
- IGDS

- 1 de abr.
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Iniciado em 2023, programa do IGDS em parceria com a prefeitura de São Paulo (SP) leva conhecimento sobre empreendedorismo a todas as regiões da metrópole

Depois de três anos de atuação na cidade de São Paulo, o programa Meu Trampo É Empreender encerra suas atividades com a marca de 24.233 pessoas certificadas e mais bem preparadas para empreender. O encerramento aconteceu em 20 de março, com a cerimônia de formatura dos alunos que participaram das últimas turmas abertas pela parceria entre a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) da cidade e o IGDS - Instituto Global Desenvolvimento e Sustentabilidade (antes Instituto Besouro).
O Meu Trampo foi anunciado em 27 de janeiro de 2023 e, desde então, levou, de forma gratuita, conhecimentos em planejamento e gestão de negócios para residentes de comunidades em situação de vulnerabilidade social nas diferentes regiões da capital paulista. O programa consiste na oferta de capacitação baseada na metodologia By Necessity, que ensina a elaborar planos de negócios para começar a empreender com pouco ou nenhum investimento inicial. São 10 etapas percorridas em sala de aula, passando por temas como finanças, precificação, marketing e recursos humanos, seguidas de um período de incubação, de 90 dias, ao longo dos quais os alunos recebem consultoria personalizada para alavancar seus negócios.
A capacitação sempre teve como objetivo, por meio da educação empreendedora, ampliar as possibilidades de os egressos abrirem e gerirem seus próprios negócios, além de aumentarem sua renda e a de suas famílias, gerando também impactos positivos nas comunidades onde vivem. Dados da Prefeitura de São Paulo indicam que esse objetivo foi alcançado, o que explica a extensão do programa, inicialmente previsto para apenas um ano. As pesquisas socioeconômicas mostram que os participantes registraram um aumento médio de 63,47% na renda após o período de incubação, concluído por 15,6 mil pessoas, superando a meta inicial de 14,7 mil. Além disso, 98% dos concluintes relataram vontade de retomar os estudos; 96% afirmaram ter aplicado, em seus negócios, os conhecimentos adquiridos; e 97% disseram sentir-se motivados com as aulas. No mesmo sentido, 97% dos respondentes destacaram ganhos significativos em seus conhecimentos.
Thaynara Monteiro, coordenadora de projetos do IGDS, diz que a importância do Meu Trampo está traduzida nos novos negócios abertos ou aprimorados pelos participantes e no fortalecimento da autonomia, da confiança e das perspectivas de futuro entre eles. “Muitos desenvolveram novas habilidades, ampliaram seus repertórios e passaram a enxergar outras possibilidades no empreendedorismo. Nas comunidades que receberam o Meu Trampo, o impacto aconteceu com a valorização do público, com a criação de espaços de diálogo com a equipe em sala de aula e com aprendizado coletivo. De forma geral, o projeto contribuiu para fortalecer vínculos, para estimular o protagonismo entre as pessoas e para viabilizar transformações positivas na cidade de São Paulo”, avalia.
Comer melhor, viver melhor e vender melhor
Muitos dos egressos do Meu Trampo encontraram no programa a oportunidade de conquistar seu primeiro certificado de capacitação ou de adquirir conhecimentos que os motivaram a impulsionar e qualificar suas atuações como micro e pequenos empreendedores. Para Lívia Barbosa Bento Guedes, de 29 anos, o programa representou ambas as conquistas. Sua empresa, a Aroma di Amor, nasceu em 2022 e hoje permite que ela cubra as despesas do lar que compartilha com as filhas Laís e Mirela, de 8 e 9 anos, no Morro Doce, zona oeste de São Paulo (SP), além de atender às necessidades e a alguns desejos das três. Mais do que isso, o negócio lhe possibilitou deixar para trás um casamento que define como “tóxico” e se dedicar a promover saúde por meio das marmitas que prepara em sua própria casa.

A decisão de atuar no ramo de alimentação foi motivada por diversos fatores. O primeiro deles é sua experiência na cozinha, já que cozinha há muito tempo e com habilidade. Ao longo dos anos, já vendeu coxinhas, trufas, ovos de Páscoa, entre outros produtos. A escolha pelas marmitas surgiu a partir de uma necessidade pessoal de mudar hábitos alimentares, após ganhar dezenas de quilos durante um período de depressão. “Cheguei a pesar 105 kg e meço só 1m53, poxa”, descreve. Para reverter o quadro, começou a fazer terapia, além de exercícios dentro de casa. Em paralelo, com orientação de uma nutricionista, incorporava preparos mais leves à rotina alimentar. O impulso para fazer disso um negócio veio sem planejamento – a dentista que atendia suas filhas disse estar interessada em adquirir marmitas saudáveis, e Lívia disse que podia fazê-las. “Ela ficou apaixonada pela comida. A partir daí, pesquisei, vi a possibilidade de desenvolver combos para venda, incrementei o meu cardápio, e sigo na atividade”, pontua.
Lívia já conquistou uma clientela fixa, mas quer vê-la crescer. E, para isso, os saberes adquiridos no Meu Trampo, como os conhecimentos sobre precificação e administração das finanças, são diferenciais importantes. “Quero entregar marmitas de qualidade, que ajudem as pessoas a serem mais saudáveis e a estarem de bem consigo mesmas, a preços justos”, resume.

O certificado de participação no Meu Trampo foi o primeiro da empreendedora, mas certamente não será o último. Motivada com a Aroma di Amor, e sempre disposta a dar bons exemplos às filhas e a mostrar para outras mulheres que também podem realizar o que quiserem, em 2026 Lívia começou o curso técnico em Administração na Escola Técnica Estadual (Etec) Basilides de Godoy. “Fiz a seleção sem expectativa nenhuma, porque há 11 anos não frequentava uma escola. Mas passei na primeira chamada. Estou extremamente feliz”, conta.
No momento, Lívia também está animada com uma oportunidade oferecida pelos proprietários da academia que frequenta diariamente: instalar um freezer no local para vender suas marmitas aos alunos. Para o futuro, planeja ampliar a cozinha e contratar ajuda na preparação dos pratos, que incluem sucessos de venda como a carne de panela desfiada (a “carne-louca”, como é conhecida em São Paulo).
O sabor caseiro que veio de Alagoas para São Paulo
Distante do Morro Doce, na Vila Roseiras, distrito de Guaianases, Zona Leste de São Paulo, é Maria Vânia do Nascimento, alagoana de 48 anos, quem trabalha para conquistar os clientes “pela boca”. Ela é a responsável pelas iguarias da Lu Cocadas. Além do produto principal – disponível nas versões tradicional, coco queimado, abacaxi e maracujá –, a empreendedora também prepara geladinhos, que vende nas ruas e em alguns estabelecimentos nos períodos mais quentes do ano.

Beneficiária do Bolsa Família, Maria Vânia – conhecida como Lu, um apelido dado pelos irmãos –, vive com as filhas e viu na venda das cocadas uma forma de complementar a renda doméstica. Os diferenciais dos seus produtos, segundo ela, incluem o frescor dos ingredientes e o fato de serem todos naturais. Ela prefere, inclusive, não fornecer para bares, lanchonetes e restaurantes, para evitar que os doces percam qualidade caso não sejam consumidos rapidamente. Além disso, sua alegria é um diferencial na conquista da clientela, que já reconhece o bordão “Lu, cocada caseira, a melhor da Roseira”, entoado por ela pelas ruas durante as vendas. “É a minha propaganda”, diz, lembrando que começou a vender os doces há cinco anos, no início da pandemia de Covid-19, quando ficou sem emprego fixo.
O negócio teve início depois que Maria Vânia levou cocadas a uma festa e fez sucesso. A partir daí, decidiu testar as vendas – e deu certo. “Tenho alguns clientes fixos, mas a cada dia conquisto mais um, depois outro, e assim vai. Muitas pessoas acabam indicando meus produtos”, detalha a cozinheira. A base das receitas ela encontrou na internet, mas fez adaptações para incorporar seu toque pessoal e garantir um sabor diferenciado a partir dos ingredientes naturais. Maria Vânia avalia que, como em qualquer área, o setor de alimentação tem seus desafios, mas também proporciona a satisfação de levar alegria às pessoas por meio dos doces. “E receber elogios também é muito satisfatório”, acrescenta.

Quando soube da oportunidade de participar do Meu Trampo, a empreendedora inicialmente relutou – seria mais uma demanda em uma rotina já sobrecarregada. Além de cuidar da Lu Cocadas (e dos geladinhos), Maria Vânia precisa dar atenção às filhas e à casa, além de trabalhar como diarista duas vezes por semana. Ainda assim, incentivada por outras pessoas, decidiu comparecer e ficou positivamente surpresa com a experiência. “Os aprendizados foram muito importantes. O professor também foi incrível. Uma pessoa que estava disposta a ensinar, mas também a aprender, tudo ao mesmo tempo. Eu faria o curso novamente, com certeza. E, para além dos conhecimentos, houve também outro ponto importante, que foram as novas amizades que fiz”, avalia.
E o que Maria Vânia quer agora? Ela quer “mais”. “Quero muito ter um meu próprio espaço, só para o trabalho. Também pretendo melhorar as embalagens, colocar a minha logo nelas. Voltar a ter uma camiseta da Lu Cocadas para usar quando vou às vendas”, elenca. No âmbito pessoal, sua ambição é tão grande quanto generosa: “Um futuro em que as pessoas sejam mais humildes e boas umas com as outras”.




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